Viveiro da experiência humana

A primeira impressão produzida pela instalação de Ana Paula Oliveira é de que estamos no lugar errado. Afinal, uma galeria de arte e um enorme viveiro de pássaros não tem lá muito em comum, a despeito das enormes estranhezas que surgem com frequência em manifestações contemporâneas. No entanto, a sala térrea da galeria Virgilio está inteiramente ocupada por passarinhos de diferentes espécies – periquitos, mandarins, canários da terra, canários belgas – que voam tranquilamente de um lugar para outro, quase indiferentes aos observadores que invadem seu território. Devem ter nascido em cativeiro, tal o seu pouco incômodo com os humanos. À entrada da sala, um canário em guarda no seu ninho parece mesmo saudar aqueles que entram.

As aves estão muito bem em seu papel, ainda que desconheçam isso. Com seu vôo, suas cores, seus ruídos e cantos, elas põem em ação uma espaço que geralmente nos escapa, dada sua insipidez. Alto e baixo, aqui e ali, os vazios e ângulos ganham vida com a sua movimentação irregular, tão diversa da geometria mais construtivista traçada pelo canto dos galos no poema de João Cabral de Mello Neto.

À medida que nos deslocamos pelo lugar, os pássaros também se movem e assim a sala não pára de se alternar de um canto para o outro, cheia de possibilidades. No chão, superfícies circulares de vidro – umas espelhadas, outras transparentes – guardam alimento e água e contribuem para tornar algumas regiões mais vivas do que outras, porque eles se concentram mais aí. E se escolheram os suportes das luminárias para se empoleirar à noite, logo ficamos sabendo de seus hábitos, pois seus dejetos transportam para o chão a geometria das luminárias.

Se a obra de Ana Paula Oliveira se resumisse a esse deslocamento, já haveria aí um ganho artístico, tanto pela estranheza da cena como pela complexa experiência do espaço que ela proporciona. Mas à leveza dos pássaros se contrapõe um jogo de forças tenso, armado com precisão. Três grossas toras de madeira velha, apoiadas na parede e nas duas colunas da sala, prensam fortemente algumas lâminas de vidro contra as janelas do espaço, impedindo que as aves escapem. Entre as placas de vidro, pedaços de borracha são espremidos pela evidente pressão exercida pelas vigas. A disposição das toras de madeira não obedece a ângulos ou intervalos regulares. A sua rudeza material corresponde então um cálculo meio precário de sua capacidade de apoio, como acontece com essas estacas improvisadas que escoram construções condenadas, prestes a ruir.

Agora não é leveza do espaço que se mostra. Ao contrário, esse jodo de pressões traz à tona os elementos que constroem o ambiente – colunas, paredes, janelas – e que, pelo hábito e pelo equilíbrio, dificilmente experimentamos com intensidade. Também aqui ocorre uma assimetria interessante , pois apenas as colunas e um lado da sala recebem a pressão das escoras, enquanto do outro lado as paredes executam uma função mais tradicional e sustentam três esculturas de borracha e vidro, tensionadas por cabos de aço. Trata-se de fato de uma instalação, pois desde sua origem – nas discussões levantadas pelos minimalistas a partir do começo da década de 1960 – ela esteve à problematização do espaço expositivo e à experiência corporal de suas possibilidades. O esquecimento dessa dimensão rapidamente conduziu à academização dessas práticas, que passou a se utilizar do espaço real e dos mais estranhos materiais para apenas apresentar, com nova roupagem, narrativas tradicionais.

No entanto, o trabalho não se limita a pôr em questão o lugar em que se encontra. Seria pouco. Seria manter a mesma crença ingênua que vê nas pinturas modernas apenas a discussão sobre os procedimentos pictóricos. José Bento Ferreira, no texto esclarecedor que acompanha o folder da exposição, revela que a artista tomou como ponto de partida para seu trabalho o conto O gato, um pintassilgo e as estrelas, de Luigi Pirandello, que também dá nome à instalação, que fica em exposição na Galeria Virgilio até quinta-feira, das 10 às 19 horas. Não conheço o conto e creio que se pode prescindir de sua leitura para a compreensão – ao menos inicial – da obra.

A meu ver, a instalação produz uma experiência em que convivem, paradoxalmente, sensações de abandono e de algo novo que está para acontecer. Tão logo encaramos o trabalho, à entrada, sem ainda termos penetrado seu espaço, torna-se difícil não associarmos a cena de uma situação em que aves foram deixadas ali sem mais, entregues à própria sorte. Elas também estão no lugar errado. E a presença ostensiva das escoras acentua esse sentimento de descuido e desdém. Os passarinhos ainda mantém sua vivacidade, não revelam fome nem cansaço, mas já não há a figura humana nem o ambiente – um zoológico, por exemplo – que configurem a situação de uma cativeiro aceitável (para nós, é claro). A mim, inclusive, ocorreu que eles voavam mais livremente, pois a presença humana não os forçava a certos comportamentos. Contudo, ao estabelecermos um contato mais estreito com a obra, tenho a impressão que aquela sensação de desolação e abandono progressivamente se esvai. A presença tão ágil desses animais – ainda que criados e, cativeiro, jamais serão humanos – acentua nossas limitações para experimentar o espaço. Pode ser – alguns observadores tiveram esse sentimento – que, quando as aves se empoleiram mais maciçamente nos suportes das luminárias, se tenha a expectativa de uma violência iminente, certamente associada ao filme Os Pássaros, de Hitchcock. É de se considerar. Mas como o ataque não ocorre, prevalece um convívio meio harmônico e meio indiferença entre seres muito diferentes.

Novamente, se estabelece uma sensação de desamparo: um bem estar permeado por indiferença e impossibilidade de um contato real. Mas por que ceder ao desamparo? As estacas estão sempre ali, a garantir nossa capacidade de controle e contenção. E no entanto essa capacidade está posta em xeque, por sua precariedade e improviso. A pressão das escoras, tão clara, tende a acentuar a força dos elementos estruturais em seu desequilíbrio e fragilidade, também eles no fundo elementos que agem como resultado de forças naturais. Em resumo: realmente tive a forte sensação de que algo novo estava, para se dar naquele espaço, sem que esse sentimento angustiasse ou oprimisse. Numa análise célebre sobre as pinturas do começo da trajetória de Jasper Johns, o crítico e historiador Leo Steinberg concluía seu ensaio dizendo: “E então eu vi todas as primeiras pinturas de Johns, na passividade de seus temas e em sua morosa permanência através do tempo, implicam um espécie permanente.(…) Mas não esperam por nada, já que os objetos, tais como Johns os apresenta, não reconhecem nenhuma presença viva; eles são sinais da ausência humana num ambiente feito pelo homem. Restam apenas as posses do homem, abafadas por tinta como se fora vegetação indiferente. Objetos familiares, mas Johns antecipou seu abandono”. Admirável compreensão de um trabalho tão complexo. Na instalação de Ana Paula o sentido é diverso: o abandono sugere também um acontecimento novo. Sua clareza sobre a situação contemporânea salta aos olhos e não lhe move um otimismo ingênuo, o que tampouco acontece com Johns. Nesse confronto entre leveza e tensão parece se manifestar a possibilidade de um novo início, sem fundamentalismos ou assências. O convívio entre seres e coisas tão diferentes, que se mostra brilhantemente nas três esculturas – nas quais uma estrutura rigorosamente construtivista revela sua incapacidade de transmitir a boa forma a materiais excessivamente moles – , ainda que mostrado em condições precárias e frágeis, sugere que devemos encarar com coragem o ponto talvez sem retorno a que chegamos.

Talvez tenhamos posto tudo a perder. Mesmo assim é preciso manter a lucidez. Não aprofundar o desastre por decisões ansiosas ou arrogantes, características que sem dúvida foram decisivas para trazer o planeta ao atual estado. Algo sobrará. Talvez sejam apenas pássaros, estacas e alguns seres humanos. E se aceitarmos as condições desse novo jogo, talvez mesmo a partir de agora possamos vislumbrar novos horizontes.

30 de setembro de 2007 – caderno CULTURA do jornal O Estado de S. Paulo – Rodrigo Naves crítico de arte e escritor.