2007
Galeria Virgilio
SP
Viveiro da experiência humana
Por Rodrigo Naves
A primeira impressão produzida pela instalação de Ana Paula Oliveira é de que estamos no lugar errado. Afinal, uma galeria de arte e um enorme viveiro de pássaros não tem lá muito em comum, a despeito das enormes estranhezas que surgem com frequência em manifestações contemporâneas. No entanto, a sala térrea da galeria Virgilio está inteiramente ocupada por passarinhos de diferentes espécies – periquitos, mandarins, canários da terra, canários belgas – que voam tranquilamente de um lugar para outro, quase indiferentes aos observadores que invadem seu território. Devem ter nascido em cativeiro, tal o seu pouco incômodo com os humanos. À entrada da sala, um canário em guarda no seu ninho parece mesmo saudar aqueles que entram.
As aves estão muito bem em seu papel, ainda que desconheçam isso. Com seu vôo, suas cores, seus ruídos e cantos, elas põem em ação uma espaço que geralmente nos escapa, dada sua insipidez. Alto e baixo, aqui e ali, os vazios e ângulos ganham vida com a sua movimentação irregular, tão diversa da geometria mais construtivista traçada pelo canto dos galos no poema de João Cabral de Mello Neto.
À medida que nos deslocamos pelo lugar, os pássaros também se movem e assim a sala não pára de se alternar de um canto para o outro, cheia de possibilidades. No chão, superfícies circulares de vidro – umas espelhadas, outras transparentes – guardam alimento e água e contribuem para tornar algumas regiões mais vivas do que outras, porque eles se concentram mais aí. E se escolheram os suportes das luminárias para se empoleirar à noite, logo ficamos sabendo de seus hábitos, pois seus dejetos transportam para o chão a geometria das luminárias.
Se a obra de Ana Paula Oliveira se resumisse a esse deslocamento, já haveria aí um ganho artístico, tanto pela estranheza da cena como pela complexa experiência do espaço que ela proporciona. Mas à leveza dos pássaros se contrapõe um jogo de forças tenso, armado com precisão. Três grossas toras de madeira velha, apoiadas na parede e nas duas colunas da sala, prensam fortemente algumas lâminas de vidro contra as janelas do espaço, impedindo que as aves escapem. Entre as placas de vidro, pedaços de borracha são espremidos pela evidente pressão exercida pelas vigas. A disposição das toras de madeira não obedece a ângulos ou intervalos regulares. A sua rudeza material corresponde então um cálculo meio precário de sua capacidade de apoio, como acontece com essas estacas improvisadas que escoram construções condenadas, prestes a ruir.
Agora não é leveza do espaço que se mostra. Ao contrário, esse jodo de pressões traz à tona os elementos que constroem o ambiente – colunas, paredes, janelas – e que, pelo hábito e pelo equilíbrio, dificilmente experimentamos com intensidade. Também aqui ocorre uma assimetria interessante , pois apenas as colunas e um lado da sala recebem a pressão das escoras, enquanto do outro lado as paredes executam uma função mais tradicional e sustentam três esculturas de borracha e vidro, tensionadas por cabos de aço. Trata-se de fato de uma instalação, pois desde sua origem – nas discussões levantadas pelos minimalistas a partir do começo da década de 1960 – ela esteve à problematização do espaço expositivo e à experiência corporal de suas possibilidades. O esquecimento dessa dimensão rapidamente conduziu à academização dessas práticas, que passou a se utilizar do espaço real e dos mais estranhos materiais para apenas apresentar, com nova roupagem, narrativas tradicionais.
No entanto, o trabalho não se limita a pôr em questão o lugar em que se encontra. Seria pouco. Seria manter a mesma crença ingênua que vê nas pinturas modernas apenas a discussão sobre os procedimentos pictóricos. José Bento Ferreira, no texto esclarecedor que acompanha o folder da exposição, revela que a artista tomou como ponto de partida para seu trabalho o conto O gato, um pintassilgo e as estrelas, de Luigi Pirandello, que também dá nome à instalação, que fica em exposição na Galeria Virgilio até quinta-feira, das 10 às 19 horas. Não conheço o conto e creio que se pode prescindir de sua leitura para a compreensão – ao menos inicial – da obra.
A meu ver, a instalação produz uma experiência em que convivem, paradoxalmente, sensações de abandono e de algo novo que está para acontecer. Tão logo encaramos o trabalho, à entrada, sem ainda termos penetrado seu espaço, torna-se difícil não associarmos a cena de uma situação em que aves foram deixadas ali sem mais, entregues à própria sorte. Elas também estão no lugar errado. E a presença ostensiva das escoras acentua esse sentimento de descuido e desdém. Os passarinhos ainda mantém sua vivacidade, não revelam fome nem cansaço, mas já não há a figura humana nem o ambiente – um zoológico, por exemplo – que configurem a situação de uma cativeiro aceitável (para nós, é claro). A mim, inclusive, ocorreu que eles voavam mais livremente, pois a presença humana não os forçava a certos comportamentos. Contudo, ao estabelecermos um contato mais estreito com a obra, tenho a impressão que aquela sensação de desolação e abandono progressivamente se esvai. A presença tão ágil desses animais – ainda que criados e, cativeiro, jamais serão humanos – acentua nossas limitações para experimentar o espaço. Pode ser – alguns observadores tiveram esse sentimento – que, quando as aves se empoleiram mais maciçamente nos suportes das luminárias, se tenha a expectativa de uma violência iminente, certamente associada ao filme Os Pássaros, de Hitchcock. É de se considerar. Mas como o ataque não ocorre, prevalece um convívio meio harmônico e meio indiferença entre seres muito diferentes.
Novamente, se estabelece uma sensação de desamparo: um bem estar permeado por indiferença e impossibilidade de um contato real. Mas por que ceder ao desamparo? As estacas estão sempre ali, a garantir nossa capacidade de controle e contenção. E no entanto essa capacidade está posta em xeque, por sua precariedade e improviso. A pressão das escoras, tão clara, tende a acentuar a força dos elementos estruturais em seu desequilíbrio e fragilidade, também eles no fundo elementos que agem como resultado de forças naturais. Em resumo: realmente tive a forte sensação de que algo novo estava, para se dar naquele espaço, sem que esse sentimento angustiasse ou oprimisse. Numa análise célebre sobre as pinturas do começo da trajetória de Jasper Johns, o crítico e historiador Leo Steinberg concluía seu ensaio dizendo: “E então eu vi todas as primeiras pinturas de Johns, na passividade de seus temas e em sua morosa permanência através do tempo, implicam um espécie permanente.(…) Mas não esperam por nada, já que os objetos, tais como Johns os apresenta, não reconhecem nenhuma presença viva; eles são sinais da ausência humana num ambiente feito pelo homem. Restam apenas as posses do homem, abafadas por tinta como se fora vegetação indiferente. Objetos familiares, mas Johns antecipou seu abandono”. Admirável compreensão de um trabalho tão complexo. Na instalação de Ana Paula o sentido é diverso: o abandono sugere também um acontecimento novo. Sua clareza sobre a situação contemporânea salta aos olhos e não lhe move um otimismo ingênuo, o que tampouco acontece com Johns. Nesse confronto entre leveza e tensão parece se manifestar a possibilidade de um novo início, sem fundamentalismos ou assências. O convívio entre seres e coisas tão diferentes, que se mostra brilhantemente nas três esculturas – nas quais uma estrutura rigorosamente construtivista revela sua incapacidade de transmitir a boa forma a materiais excessivamente moles – , ainda que mostrado em condições precárias e frágeis, sugere que devemos encarar com coragem o ponto talvez sem retorno a que chegamos.
Talvez tenhamos posto tudo a perder. Mesmo assim é preciso manter a lucidez. Não aprofundar o desastre por decisões ansiosas ou arrogantes, características que sem dúvida foram decisivas para trazer o planeta ao atual estado. Algo sobrará. Talvez sejam apenas pássaros, estacas e alguns seres humanos. E se aceitarmos as condições desse novo jogo, talvez mesmo a partir de agora possamos vislumbrar novos horizontes.
Rodrigo Naves, crítico de arte e escritor.
30 de setembro de 2007 – caderno CULTURA do jornal O Estado de S. Paulo
Saber ou não saber, eis a questão
Por José Bento Ferreira
A presença de animais em exposições de arte, como na “ação” de Joseph Beuys com um coiote (1974), é sempre perturbadora. O conto O gato, um pintassilgo e as estrelas, da série Novelas para um ano (1922–33), de Luigi Pirandello, em que se baseou Ana Paula Oliveira, pode ser lido como uma formulação perfeita dessa perturbação.
O narrador reitera sua interrogação: “ o que sabe a pedra a respeito da pedra ao lado?” Para todos os elementos naturais da narrativa, até o gato, que devora o pintassilgo, e as estrelas, que parecem assistir a tudo, vale a mesma consideração: nada sabem de si mesmos nem dos outros. Somente os homens creem saber, possuir e amar.
Em face de um animal vivo e cativo no interior de uma obra de arte, as considerações de Pirandello sobre as personagens de sua historia podem ser refeitas: o que sabem o coiote e os pássaros sobre o estranho cárcere? Será muito diferente o modo como os olham os espectadores da arte e os visitantes do zoológico? Uma vez que não são como pombos sobre monumentos, eles não estão sobre a obra de arte, nem mesmo dentro dela, eles são a arte.
Embora imprescindível, nossa pergunta é retorica, tanto quanto a do narrador de Pirandello: certamente os animais não se veem como arte, assim como o pintassilgo não se via como um vestígio de um ente querido, nem o gato se deu conta pelas desgraças de seu apetite.
No mundo lícito supor que os animais e seres humanos estejam magicamente ligados porque se atribui aos elementos naturais a consciência que se pressupõe no homens. O conto de Pirandello in ita o formato das fábulas para mostrar que os passes de magicas são tão falsos quanto a moral da historia: de fato parece que as estrelas estão observando aquela “pobre aldeia entre montanhas”, mas sabemos que não é o caso.
Animais e homens fazem parte da mesma paisagem sob o céu, nada sabem de si mesmos nem dos outros, a diferença é que os homens creem saber. Socraticamente podemos considerar quem crê que sabem sem saber como um ignorante mais estupido do que aquele que apenas não sabe.
Engaiolados na galeria, os pássaros não sabem o que deles foi feito. E nos, espectadores, o que sabemos?
Em suas esculturas e instalações, Ana Paula Oliveira usa substancias resinosas, quase orgânicas. As formas que tomam equivalem às diversas maneiras como se consegue que mantenham sob um equilíbrio aparentemente instável, sem que escorram ou desmoronem. Ao mesmo tempo em que são determinadas pelo problema pratico da sustentação de materiais viscosos, há sempre a impressão de que a instabilidade espelha o caráter fortuito da visa em face dos seres inanimados.
A experiência da contingencia é marca do mundo cultural, composto pela ação humana sob as leis necessárias da natureza. Essa construção da cultura é impelida por visões de uma destinação supra-sensível, como se as leis naturais do mundo ético pudessem ser tão necessárias quanto as leis naturais do mundo físico, ainda que dependam das ações, decisões e inclinações dos homens, que são instáveis, contingentes.
As varias formas de providencia divina e necessidade histórica seriam as faces dessa promessa de superação da vida em proveito de uma ideal. A arte de Ana Paula oliveira está mobilizada por esse sentimento, uma vez que procura redimir a insustentabilidade dos materiais viscosos por meio da solidez de cunhas, vigas, parafusos, madeira, vidros. Do mesmo modo e inversamente, a vivacidade da matéria orgânica dá vida a essas estruturas frias.
Se há algo além, disto sabemos tão pouco quanto sabem os pássaros sobre a obra de arte que integram. Por isso somos como eles, ao visitar a exposição, não porque a arte seja indecifrável, mas porque não há o que decifrar.
As obras de arte refletem aquilo de que não há uma versão inteligível. Traduzir literalmente, atribuir um sentido, seria o equivalente de substancializar uma ideia, como fazem as religiões e os fundamentos.
Este creem que sabem e não raro os maiores inimigos da arte e da critica, que esboçam o ideal e expõe nosso não-saber.
José Bento Ferreira, 2007.