A presença de animais em exposições de arte, como na “ação” de Joseph Beuys com um coiote (1974), é sempre perturbadora. O conto O gato, um pintassilgo e as estrelas, da série Novelas para um ano (1922–33), de Luigi Pirandello, em que se baseou Ana Paula Oliveira, pode ser lido como uma formulação perfeita dessa perturbação.
O narrador reitera sua interrogação: “ o que sabe a pedra a respeito da pedra ao lado?” Para todos os elementos naturais da narrativa, até o gato, que devora o pintassilgo, e as estrelas, que parecem assistir a tudo, vale a mesma consideração: nada sabem de si mesmos nem dos outros. Somente os homens creem saber, possuir e amar.
Em face de um animal vivo e cativo no interior de uma obra de arte, as considerações de Pirandello sobre as personagens de sua historia podem ser refeitas: o que sabem o coiote e os pássaros sobre o estranho cárcere? Será muito diferente o modo como os olham os espectadores da arte e os visitantes do zoológico? Uma vez que não são como pombos sobre monumentos, eles não estão sobre a obra de arte, nem mesmo dentro dela, eles são a arte.
Embora imprescindível, nossa pergunta é retorica, tanto quanto a do narrador de Pirandello: certamente os animais não se veem como arte, assim como o pintassilgo não se via como um vestígio de um ente querido, nem o gato se deu conta pelas desgraças de seu apetite.
No mundo lícito supor que os animais e seres humanos estejam magicamente ligados porque se atribui aos elementos naturais a consciência que se pressupõe no homens. O conto de Pirandello in ita o formato das fábulas para mostrar que os passes de magicas são tão falsos quanto a moral da historia: de fato parece que as estrelas estão observando aquela “pobre aldeia entre montanhas”, mas sabemos que não é o caso.
Animais e homens fazem parte da mesma paisagem sob o céu, nada sabem de si mesmos nem dos outros, a diferença é que os homens creem saber. Socraticamente podemos considerar quem crê que sabem sem saber como um ignorante mais estupido do que aquele que apenas não sabe.
Engaiolados na galeria, os pássaros não sabem o que deles foi feito. E nos, espectadores, o que sabemos?
Em suas esculturas e instalações, Ana Paula Oliveira usa substancias resinosas, quase orgânicas. As formas que tomam equivalem às diversas maneiras como se consegue que mantenham sob um equilíbrio aparentemente instável, sem que escorram ou desmoronem. Ao mesmo tempo em que são determinadas pelo problema pratico da sustentação de materiais viscosos, há sempre a impressão de que a instabilidade espelha o caráter fortuito da visa em face dos seres inanimados.
A experiência da contingencia é marca do mundo cultural, composto pela ação humana sob as leis necessárias da natureza. Essa construção da cultura é impelida por visões de uma destinação supra-sensível, como se as leis naturais do mundo ético pudessem ser tão necessárias quanto as leis naturais do mundo físico, ainda que dependam das ações, decisões e inclinações dos homens, que são instáveis, contingentes.
As varias formas de providencia divina e necessidade histórica seriam as faces dessa promessa de superação da vida em proveito de uma ideal. A arte de Ana Paula oliveira está mobilizada por esse sentimento, uma vez que procura redimir a insustentabilidade dos materiais viscosos por meio da solidez de cunhas, vigas, parafusos, madeira, vidros. Do mesmo modo e inversamente, a vivacidade da matéria orgânica dá vida a essas estruturas frias.
Se há algo além, disto sabemos tão pouco quanto sabem os pássaros sobre a obra de arte que integram. Por isso somos como eles, ao visitar a exposição, não porque a arte seja indecifrável, mas porque não há o que decifrar.
As obras de arte refletem aquilo de que não há uma versão inteligível. Traduzir literalmente, atribuir um sentido, seria o equivalente de substancializar uma ideia, como fazem as religiões e os fundamentos.
Este creem que sabem e não raro os maiores inimigos da arte e da critica, que esboçam o ideal e expõe nosso não-saber.
José Bento Ferreira.
2007