Ainda que te ví

Há algo de naturalmente fascinante no fenômeno das lagartas que viram borboletas, na transformação de um ser rastejante e repulsivo noutro ser tão belo e com asas para voar. Como num conto de fadas. Mas aqui o conto de fadas dá lugar a um laboratório de criação real desses bichos. E este é o ponto de partida do trabalho, que se articula como instalação, escultura, vídeo e fotografia. Cerca de 300 casulos foram instalados em cabos de aço que sustentam pesadas placas de pedra suspensas na galeria, num contraste que de cara estabelece a dimensão escultórica da experiência. Lentes de aumento encrustradas nas pedras permitem uma visão dos casulos em nítidos detalhes. Reino da visibilidade. E as borboletas que nascem todos os dias ficam soltas na galeria. O fenômeno natural é transformado em artifício. Um vídeo mostra transformações de lagarta em casulo e de casulo em borboleta. Parecem aliens. Uma vitrine exibe uma pequena peça onde casulos metalizados tornam os pequenos monstros em joias. Numa época onde a busca por excentricidade na arte tornou-se banal e acadêmico, o trabalho de Ana Paula de Oliveira consegue ser realmente estranho e surpreendente, onde repulsa e encanto fundem-se num interessante fenômeno estético.

Rodrigo Andrade